A Noite, de Rodrigo Amboni

Por Flávio Dias

Muitas coisas nos saltam aos olhos no filme A Noite, de Rodrigo Amboni. E os olhos parecem não ser instrumentos suficientemente densos para decifrar o veludo verde com que seu segundo curta-metragem nos presenteia. Mais do que o domínio espantoso da linguagem cinematográfica que Rodrigo já demonstrava em seu primeiro curta, de 2012, O Relojoeiro, e o tratamento quase alucinógeno com que maneia as histórias que conta, o que acende A Noite de Rodrigo é um cinema extremamente sensorial, hipnótico e de uma sensualidade rara e orgânica em cada plano. Sente-se, nos dedos e na pele, o roçar das folhas, o orvalho, e, sobretudo, o mar. Se O Relojoeiro era essencialmente urbano, A Noite é uma obra em que o horizonte não está nunca longe e Rodrigo parece ter-se encontrado filmando de uma maneira luxuriante as paisagens quase táteis dessa natureza que parece ter textura na tela, como uma carícia. Mais próximo do cinema de Lynch do que de Mallick, a natureza no filme de Rodrigo é território de sonho e de perda. A trama é ágil e não cai em contemplações inúteis ou maneirismos e o caráter perturbador dos elementos (a floresta, o céu, a areia, o mangue, a barba dos personagens) tem algo de pacto com o invisível, que Rodrigo nos deixa pressentir em cada cena.

A precisão do som que como elemento não meramente auditivo, mas como fator de desequilíbrio narrativo e sensorial já era evidente n‘O Relojoeiro e, nesse seu segundo curta, atinge níveis vertiginosos, de doces calafrios impressionantes. O som é uma ilha que liga sensações no cinema de Rodrigo e dá ao filme uma atmosfera cheia de diferentes graus de realidade e casa-se, perfeitamente, com a beleza das imagens. Rodrigo filma o vento de forma rara, com maestria – nós o seguimos inquietos, temerosos e, sobretudo, maravilhados, como se estivéssemos à espreita de um gesto novo, descalços na floresta. Pouco sabe-se dos personagens além do que se mostra na tela: eles não tem profissão, carteira de identidade, CPF, e isso dá um tom de tragédia, de classicismo quase mitológico ou místico à trama. Rodrigo filma corpos, peles e o fantástico de cada dia, de cada amanhecer, ou melhor ainda, de cada anoitecer.

Sinestesia. Conceito complexo que Rodrigo rende simples. O sobrenatural ronda A Noite, mas o medo – sensação tão própria à mescla de sentidos e ao mais orgânico nosso – é uma presença física, quase uma carícia; um brinquedo raro. Rodrigo conhece a paisagem que filma e dela impregna-se no seu mais profundo âmago e isso traduz-se no seu estilo audacioso. O território em que se desenvolve a trama dessa história curta talvez seja o personagem mais vital dessa intriga de sonhos e de labirintos. O “espírito” das sombras, do céu, do chão, do mar, da noite é essa entidade quase concreta que a película de Rodrigo toca sem pudores, mas com a delicadeza de quem ama o que filma. É preciso seguir o úmido noturno da trilha que percorre seu cinema, sem esquecermo-nos das margens distraídas do sonho a nos observar. Em A Noite uma força rói e destrói e, ao mesmo tempo, quer abraçar o estranho do espaço que habita. Sexo, amor, pulsão, possessão, uma vontade de possuir ou deixar-se ser possuído, algo que tem muito de febre, de suor e de alucinação e câmera de Rodrigo parece animada por essa mesma paixão febril, que ela observa de perto, colada ao corpo dos personagens, captando – como se a natureza se confundisse com esses corpos – cada movimento, cada gesto, cada tremor de pele, como se cheirasse a energia explosiva do que filma: essa inquietude constante de algo bonito e onírico que lateja.

Flávio é autor e compositor no grupo Helvético-Brasileiro Prosa Poética.

Publicado na Punctum – revista de cinema